"A grandeza
de Bharata Natyam, para mim, reside em sua habilidade de harmonizar
a dimensão física, intelectual, emocional e espiritual
da vida, concedendo ao intérprete o poder de tocar e comunicar
em todos os níveis. Enquanto arte composta, sintetiza melodia
e o ritmo, a pintura e a escultura, a poesia e o teatro. A dançarina
é simultaneamente o músico, cantando com seu corpo...
Ela é o escultor, dando forma e estruturando o espaço
em formas graciosas e poderosas. Ela é o pintor, adicionando
tintas e nuances à uma linha desenhada... Ela é o poeta,
escrevendo seus poemas com movimento, gestos e expressões. Antes
de mais nada, ela é uma pesquisadora, cuja dança torna-se
uma experiência transcendental e transformadora - uma prece em
êxtase que celebra a beleza, a busca e o mistério da vida." Alarmél Valli
Desde 1997, Ciane
vem trabalhando com a formação corporal de atores na UFBA,
além de ensinar também dançarinos da Escola de
Dança da UFBA e de outras instituições nas disciplinas
Dança-Teatro Contemporânea e Análise do Movimento,
do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas
da UFBA, e em montagens do A-FETO Grupo de Danca-Teatro da UFBA, sob
sua direção. A partir dos dados coletados até o
momento com relação à dança-teatro indiana
e alemã, considera que o aprimoramento deste estudo abrirá
um leque de possibilidades técnico-espetaculares para a aplicação
neste campo de trabalho, bem como em outros centros do país,
promovendo e facilitando o aprendizado de uma técnica de tão
difícil absorção.
|
Ciane
tem observado, por exemplo, as diferenças entre Bharatanatyam
e a dança dos orixás, que estudou com Joselito Santos
e Suzana Martins, em Salvador. Apesar de se tratarem de sistemas estético-culturais-religiosos
politeístas complexos, cuja dança vincula-se à
manifestação de forças da natureza, ambos têm
qualidades expressivas, posturas e ritmos muito distintos. As danças
do candomblé, apesar de extremamente complexas, já estão
de certa forma absorvidas em danças populares de rua da Bahia,
e seus ritmos não parecem tão difíceis para a corporalidade
baiana. 
Já Bharatanatyam
é um sistema totalmente estrangeiro, em suas posturas rígidas
e ágeis, a pélvis estável, e os detalhados gestos
das mãos e expressões faciais todos sincronizados em ritmos
completamente novos e distintos de ritmos nacionais como o samba ou
o frevo.
Ciane espera que este estudo abra possibilidades de aproximações
culturais, reconhecendo e valorizando diferenças como desafios
de aprendizagem e estímulo para o aperfeiçoamento corporal
(que tanto para Laban, quanto para Bharata Muni (1) e para "dançarinos" de candomblé, inclui
todos os aspectos mencionados por Alarmél Valli (2) - do emocional ao espiritual), expandindo possibilidades criativas (como
para Bausch e Chandralekha (3)) muito além
de limites pós-industriais, produtivos, docilizados e desorientados.
|
CORPO
ESTRANHO
foto:
Cláudio Etges |
(1) autor de Natyashastra (Teoria da Dramaticidade), o mais antigo
e completo tratado sobre a atuação teórico-prática
no palco, datado de 200 A.C.
(2) dançarina líder de Bharatanatyam de sua geração
(3) Em
1994, Pina Bausch e sua companhia internacional viajaram à India,
onde ralizaram diversas apresentações numa turnê
com Chandralekha, coreógrafa comtemporânea treinada em
Bharatanatyam. |